A ânsia pelo amor

Acredito que por trás de todos as nossas ações, boas ou más, está a vontade de ser amado, a vontade de preencher um buraco na nossa alma. O amor é a energia que emerge dentro de cada um de nós e nos impele para o movimento, sendo a existência ou a ausência dele. 

Acredito que desde o momento que nascemos até ao momento que morremos a nossa busca é sempre pelo amor, sempre conscientemente ou inconscientemente movidos pela ânsia de tapar o buraco de amor, com origem na vida presente ou, talvez, em vidas anteriores. 

Por norma, esta ânsia de amor reflete-se no nosso dia a dia de duas formas, pela vontade quase incontrolável em tapar o buraco através de sensações de satisfação, que podem ir desde um simples alimento, até à busca de amor dado por outros seja numa relação amorosa, amizade ou familiar, ou pela falta de coragem ou de vontade de olhar para o buraco, usando distrações como a televisão, redes sociais, pornografia ou outra qualquer forma que nos tire da realidade e nos leve à ausência.

Antes de olharmos mais a fundo para cada uma das formas de “tapar o buraco”, vamos analisar a origem desse buraco de alma existente no ser humano. Por mais que o conceito de levar a vida no presente seja claramente o caminho certo para um futuro melhor, analisar o que aconteceu no passado é a forma de dar passos mais sábios no presente, e neste racional vamos olhar para o nosso passado e ver onde andava o amor.

Guerra e mais guerra é o que acompanha a nossa evolução desde sempre, seja pela necessidade de sobrevivência numa primeira fase seja pela necessidade de alimentar o ego e a ganância do ser humano, a verdade é que a guerra deixou os países ditos civilizados à poucos anos, e este caminho por nós tomado leva ao primeiro grande buraco de amor, pois caro leitor, quando um ser humano tem que tirar a vida a outro ser humano, todo o seu amor desaparece. Relembro que em Portugal deixamos a “nossa” guerra colonial há apenas 47 anos, ou seja, muitos dos leitores têm pais que viveram uma guerra onde, e talvez, foram “obrigados” a tirar a vida a outro ser humano. Aqui o sexo masculino tem um destaque pois era ele que estava na frente da guerra e tinha que guardar o seu amor no fundo da sua alma para poder prosseguir, criando assim o seu enorme buraco de amor.

Neste caminho evolutivo da nossa espécie, que era na sua maioria liderada pelo sexo masculino, fosse pela guerra ou pela existência de trabalhos maioritariamente físicos, olhemos onde andava o sexo feminino, onde estaria a mulher quando o homem saía de casa para ir para a guerra, e quais os buracos que estaria a criar nesses momentos, a incerteza do seu regresso, o medo, o abuso ou a rejeição. Nos ambientes de guerra o amor estava ausente, por isso a mulher também estava mais ausente, sem posições de liderança e sendo rejeitada e desconsiderada, senão vejamos que na Suíça as mulheres só poderam votar em 1971, como curiosidade em Portugal foi ganho esse direito em 1931. 

Trouxe este olhar global sobre o passado para que possa entender e aceitar melhor o presente e as fragilidades do ser humano para com a sua natural ânsia pelo amor, pois é algo que nos chama no fundo da nossa alma, só que nós ainda não o conseguimos ouvir.

Vamos olhar mais a fundo para a primeira forma de “tapar o buraco”, aquela onde existe uma ação, primeiro aquelas mais conscientes que passam pela comida, quando nos atiramos ao chocolate, gelados, salgados ou simplesmente comer o que houver ou através da bebida onde o álcool toma a liderança na maior parte das vezes. Depois as ações inconscientes, aquelas que entram sorrateiramente na nossa vida e se instalam nos nossos padrões de comportamento sem nos darmos conta, levantando sempre a pergunta, porque é que eu repito sempre os mesmos erros/padrões. Esta última está geralmente ligada a relações humanas, amorosas ou não, e que geralmente têm mais impacto nas nossas vidas pela toxidade que trazem, pelo menos até aprendermos que a relação é apenas ar para o “buraco” e não amor.

Passemos à segunda forma de “tapar o buraco”, aquela onde a falta de coragem ou a presença do medo estão presentes, pois é aquilo que nos impede de olhar para dentro e ver o que está dentro desse buraco. Nestas situações procura-se constantemente olhar para o lado ao preencher a nossa vida com coisas fúteis e trivialidades, como compras excessivas e desnecessárias, ocupando o tempo em redes sociais, televisão ou algo que nos tire da realidade, algo que leve a mente para a divagação, para a ausência, ou seja, para longe da dor. Não quero que pense que sou compra qualquer destas distrações, não, pois elas fazem parte do nosso mundo e por vezes são necessárias, no entanto, o tempo e dedicação que damos às mesmas deve ser reduzido e trazido à consciência, pois a mente é uma grande aliada desta forma de “tapar o buraco” pois está programada para fugir à dor e levar a mente para a divagação, no entanto caro leitor, no local onde está a dor, está também o amor. 

A noção da existência deste nosso “buraco de amor” não deve ser tida como drama, apenas deverá ser trazida suavemente à consciência para entender melhor as sensações de insatisfação, angústia ou frustração ou outras sensações comparadas com “falhanços” na vida, pois somos sequência dos nossos antepassados e somos apenas humanos.

A consciência sobre o estado de evolução da nossa espécie deve ser tida em atenção quando queremos julgar outros ou a nós próprios, use a compaixão quando surgir esse julgamento e traga a sua mente para o presente, para si, para as suas emoções, para as suas sensações e pensamentos, para aquilo que é real, e assim, tapar todos os dias mais um pouco do seu “buraco” e viver cada vez mais, uma vida com amor. 

António Costa